22 Outubro 2009

Des(Crenças)

«Eu finjo que não quero, termino por acreditar que não quero e só então a coisa vem»
- Clarice Lispector



"Se fosse um Super Herói, qual seria?", a pergunta deixa-me atrapalhada. Nunca me fascinaram essas personagens que ocupam o imaginário dos comuns mortais e, sob pressão, só conseguia lembrar-me do Super Homem. Posso soltar esse nome só para encerrar o assunto, mas temo que logo de seguida surja a curiosidade sobre o que me atrai nos seus poderes para fazer dele o meu super herói favorito e, dessa forma, seria obrigada a admitir que não há nada nele que eu admire mais do que nos outros. O problema é que não me lembro de nenhum outro. Não gosto sequer de imaginar que coisas tenebrosas se podem pensar de alguém que não sabe nada sobre super heróis e, por isso, mantenho o meu silêncio por mais uns segundos.
Foi então que me ocorreu que não almejo ter os dons característicos. Não escolheria voar ou ler a mente alheia, tampouco gostaria de ter uma força sobrenatural. Se me fosse possível escolher gostaria de ter a capacidade de acreditar. Acreditar sempre, sem hesitações, mesmo quando as probabilidades são baixas e tudo parece perdido. Tudo isto porque, mesmo tendo eu desistido e acomodado, dei por mim a ser surpreendida pela vida.Incrivelmente existem momentos em que mesmo sem que nos ajudemos a nós próprios, os ventos sopram de forma tão favorável que acabamos por chegar ao porto que ambicionamos sem saber como. Em alturas destas sou obrigada a reconhecer toda a minha ingratidão e admitir que por vezes, muitas vezes, o meu problema é falta de fé. E a fé é como a capacidade de voar do Super Homem, não serve para nada se não for posta em prática.

15 Agosto 2009

«Parece que alguma coisa me obrigou a partir o mundo em dois.
Deste lado os bordos são ásperos. Do outro quase transparentes.
É a primeira vez que chego sem abraços e sem razão para chegar.
Não há instantes: tudo é um tempo de horas sem números...»


Não é de agora a minha luta incessante para não me deixar vencer pelos meus próprios monstros, ansiedades, desejos não satisfeitos, falhas e contratempos. Luto para não me tornar mártir da minha própria causa já que, abandonar-me ao ritmo do vento que controla as velas dos barcos alheios, não é para mim. Cada um de nós é o que é, e mesmo que muitas vezes fosse conveniente alterar no outro aquilo que me permitiria ser mais feliz, acredito que só respeitando a essência das pessoas consigo ser verdadeiramente livre para gostar ou não delas. Houve um tempo em que, tal como provavelmente acontece com todos nós, achava que no mundo dos sentimentos bons a perfeição existia... Ninguém gosta de quem é egoísta... Ninguém gosta de quem faz chorar... Ninguém gosta de quem abandona sem olhar para trás... Ninguém gosta de quem não gosta na mesma intensidade... Assim, só gostaríamos de quem faz bem, traz serenidade e alegria para as nossas vidas. Mas como eu disse, houve um tempo; esse tempo passou e junto com ele as ilusões sobre a perfeição dos sentimentos bons. Aliás, sobre a perfeição em geral. No tempo presente existem sentimentos bons maculados por outros menos bons... Alguém sempre nos faz chorar... Alguém, em algum momento, não corresponde ao nosso afecto... Alguém pensa em si em primeiro lugar... E o amor resiste. Eu, independentemente de todas as dores que a realidade me causa, aprendo a gostar da imperfeição da essência do outro, percebo como nunca tinha percebido antes o sentido da palavra incondicionalidade. Já não acredito em vidas felizes, acredito sim que a vida é composta por momentos (mais ou menos duradouros) de felicidade. Dias em que por algum milagre ou mistério intraduzível os astros, anjos ou quem quer que seja permitem que "Hoje seja um dia bom".
Amanhã? Amanhã nunca se sabe para onde soprará o vento.

17 Julho 2009

Entre verdades e vontades.

«Hoje eu tô sozinha, não sei se me levo ou se me acompanho
Mas é que se eu perder, eu perco sozinha
Mas é que se eu ganhar, aí é só eu que ganho...»


Quando no final de 2008 reingressei na faculdade para terminar o curso já sabia que os meses seguintes seriam dolorosos. Fui obrigada a interromper o curso por circunstâncias que mudaram para sempre quem eu era e o rumo da minha vida e voltar aquele lugar reavivava muitas lembranças que eu não tinha esquecido, mas que o passar do tempo me permitiu gerir de forma a causarem menos dor.
Apesar da insistência de todos quantos estavam à minha volta, foram precisos 5 anos e uma única pessoa para eu tomar a decisão de voltar; ainda hoje me espanta como alguém conseguiu ter tanta influência na minha vida...
...mas o tempo passou, o tempo sempre passa ignorando as nossas dores ou alegrias. Na passagem do ano estava convencida de que tudo estava a seguir o rumo certo, de que embora o caminho fosse penoso eu não estaria só e isso, sem que outros estímulos fossem precisos, bastava para me manter forte...
...mas os rumos mudam ignorando as nossas vontades ou necessidades. Pouco tempo depois do ano começar, e uma vez mais, a minha vida ficou virada do avesso. Há quem diga que quanto mais batemos com a cabeça na parede maior é a nossa resistência; eu digo que quanto mais porrada apanhamos, mais fragilizados vamos ficando. Mas frágeis somos nós o tempo todo, a vida inteira, o mal é que de vez em quando nos esquecemos dessa nossa condição. Sozinha uma vez mais vi-me obrigada a gerir tanta coisa que muitas vezes pensei que ia morrer sufocada por elas. Todos os dias, durante 4 meses, precisei lutar contra mim mesma para me manter no rumo. Já nem importava se era o certo ou errado; quando não se pode ir para onde se quer estar, qualquer caminho vale para não entorpecer parado no mesmo lugar.
...mas a vida acontece e nós, mesmo sem dar por isso, vamos acontecendo com ela. Com muito suor e lágrimas à mistura o curso está terminado e sei que só a mim o devo. Talvez a vida, usando linhas tortas, me esteja a preparar para a verdade que tanto me custa aceitar: todos estamos sozinhos mesmo existindo muita gente à nossa volta. E o resto continua vivo, por persistência, incondicionalidade e amor; até ao dia em que se torne real, ou se revele uma impossibilidade voando na ventania das vontades alheias.